TRÁS-OS-MONTES, de Tiago Patrício <br>– Os signos da realidade, ou os dentes esfaimados dos lobos
Alguns autores portugueses do século XX – diria, os mais consequentes e atentos aos fluxos do real; os mais sensíveis detectores dos percursos iniciáticos –, detiveram do tempo volátil da infância uma memória de magia, de deslumbre, de afectos, ou de profunda mágoa; essas impressivas marcas da vertigem dos dias – do jogo, da festa e da contínua descoberta –, que transportamos como imaginário perene e que, enquanto representação/imitação da vida, nos moldará. Souberam, com maior ou menor linearidade, transpor para a ficção esse tempo irrepetível, produzindo textos que ainda hoje, pela poética e humanidade que transportam, pelos sinais que neles, a partir deles nos revelam de uma certa forma de felicidade, nos estremecem e convocam: Bonecos de Luz, de Romeu Correia; Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol; As Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira; e esse angustiante e sombrio testemunho de um tempo e de uma circunstância que nos foi peculiar, no romance Manhã Submersa. de Vergílio Ferreira. Na poesia, relembro o mágico, o coloquial lírico dos Poemas da Infância, de Manuel da Fonseca (que o autor transpõe, com igual virtuosismo, para alguns contos de Aldeia Nova); e essa incontornável colectânea A Criança e a Vida, que o talento pedagógico e a sensibilidade de Maria Rosa Colaço nos soube revelar.
Não é fácil falar da infância se dela, irremediavelmente, nos afastamos. Sobretudo, não será fácil transpor o nosso olhar de adultos, carregado de espectros, para os olhos das crianças, sem que esse olhar sobre o real se deixe contaminar por essa visão outra. Como transpor, cognitivamente, e sem paternalismos redutores, essa imperecível volatilidade? E, ao mesmo tempo, trazer ao discurso narrativo a realidade vivida e sofrida por um cada vez maior número de portugueses? Como olhar a desertificação do interior, o sistemático abandono das terras, o grito desolado dos velhos perdidos numa paisagem que os lobos acossam, essa pungente parábola de um país à deriva – Trás-os-Montes, ao caso, como estremada geografia dessa realidade – através do olhar de quatro crianças?
O romance de Tiago Patrício, Trás-os-Montes, Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís/2011, consegue esse prodígio. Ao falar-nos, com enorme contenção nos processos figurativos e ficcionais e sem líricas contemplações, dos enigmas da infância, desses jogos de estupor e crueldade, transpondo para o olhar das crianças a dura realidade de um tempo e de um espaço portugueses – uma aldeia de Trás-os-Montes, da qual elas serão as derradeiras donas absolutas de um território a derruir. Sem elas, que partirão no final do ano lectivo, que serão as últimas a frequentar a escola, as últimas a povoar de esperança (mesmo que já fatalmente calcinada) aquele universo de duendes que aguardam apenas que a morte, ou os lobos, os libertem desse redil da incomunicabilidade, em que a chama da vida lenta, inexoravelmente, se extinguirá; sem o comboio a vapor que fará ali a sua última viagem, o futuro ficará em suspenso, em vias de perder-se. E essa representação do caos, esse olhar é, a um tempo, grave, introspectivo e cruel, e as crianças, que habitam esse território povoado por sombras, doentes, presságios, terríveis pesadelos, cães que se volvem lobos e se alimentam dos velhos que já não têm forças, nem vontade, para os enfrentar, convivem de perto com a morte, participam, elas próprias, na sua encenação, sabendo que serão também elas, no futuro, vítimas dos predadores: «(...) mas sentia que os cães haveriam de voltar mais vezes, noutros lugares, noutras raças e que haveriam de perseguir o seu cheiro a morte até ao fim».
Os jogos das crianças, a própria, e perturbante, organização urbanística da aldeia («A aldeia tinha inicialmente o traçado de uma cruz ou de um T (...) O tempo das coisas definidas e bem ordenadas tinha passado há muito e quase ninguém na aldeia sabia ao certo a forma da cruz Gamada»), os imaginários da fuga, da emigração, estão de tal modo impregnados no quotidiano, que os próprios jogos das crianças participam dessa realidade, dividindo territórios, imaginando fronteiras, transpondo, para as brincadeiras, os itinerários da fuga.
Tiago Patrício expõe, mais do que intervém, este espaço e estas personagens. Move-as na narrativa como se o fátum as compelisse a agir, um cruel, fatal destino cujo se impusesse sobre aquelas almas e as condenasse à solidão, à fuga e ao desencanto. A partir da narrativa, do olhar das crianças, o autor define a metáfora, ideia central deste romance, e exemplarmente urdida, de nos dar a ver um país que grão a grão, aldeia a aldeia, espaço a espaço, do futuro se vai afastando e perdendo.
Este território que o autor nos dá a ver, é uma espécie de medieval Porta dos Mortos, um imenso mausoléu abandonado no qual as crianças fecham, num jogo de crueldade partilhada, o Mudo. Episódio que leva à fuga, para outras paragens, os jovens pastores, deixando assim mais deserta, mais sinistra a aldeia, como se os mortos, ou o seu simbólico silêncio, apenas ali fossem convocados para perseguir os vivos – e os condenar a uma culpa perpétua pelo abandono das terras e dos seus mortos. Daí o cíclico retorno, nos agostos da vida, enquanto a memória perdurar, aos lugares da infância.
A metáfora principal deste livro é a de um país à deriva, que deixa escoar-se-lhe por entre os dedos, por medo às fomes ancestrais, o seu sangue novo.
Trás-os-Montes, de Tiago Patrício é um romance «culto» no sentido que lhe era atribuído por Jorge de Sena: «esclarecido, informado, actualizado, consciente».1 Os códigos deste romance inscrevem-se numa escrita que suporta a sua estrutura num campo semântico e diegético de notável eficácia. Assim, esta escrita, que parece produzida por um autor já rodado e não, como é o caso, de um autor a estrear-se na ficção, desenvolve-se sem sobressaltos estilísticos, em sua sóbria e axiológica agudeza, sem deixar de, subtilmente, nela integrar os signos da memória e da modernidade e os sinais que hoje, política e socialmente, nos inquietam e mobilizam.
Romance impiedoso, como um jogo de crianças perversas, dele saímos mais conscientes da realidade destes dias e da destruição que no mais fundo deste país, o capitalismo, e os seus sórdidos embustes, foi tenazmente tecendo. Trás-os-Montes é, por aquilo que revela – que esse olhar, a um tempo ingénuo e arguto, revela –, um grito mais que nos alerta, que nos diz da urgência de mudar esta realidade antes de por ela sermos tragados e já nada exista para erguer do chão – ou para salvar dos dentes esfaimados dos lobos.
Trás-os-Montes, de Tiago Patrício –
(Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2011)
Gradiva/2012
1 Alexandre Pinheiro Torres, citando Jorge de Sena, in «Ensaios Escolhidos II», p.74, Caminho,Lisboa, 1990